Trancado por dentro
A brisa movimenta a cortina, acenando os primeiros raios da manhã. Precipita-se sobre a chama consumida pela cera que emoldura o castiçal. O par de taças vazias lamenta o vinho sem serventia, afogado no balde.
O vermelho do vestido, amassado de tanto esperar, contrasta com o rosto pálido da noite de vigília. A virgindade da mesa bem-posta atrai o olhar que antes estava fixo na porta.
Ofuscados pelo sol, os olhos se fecham e expulsam lágrima retida. Sem ânimo para se abrirem, ali mesmo adormecem.
Um triste rosto masculino debruça-se sobre a janela e contempla, desolado, a cena. Lamenta a inércia que o reteve tão próximo. Naquele silêncio vazio só se ouve o esgueirar de passos fracassados.
O que sobra é a solidão do encontro que não aconteceu. Ela dorme sob a tristeza. Ele se entrega à bebida.
(do livro Para quem não tem colírio, 2004)
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