Tear
Sou de um tempo sem dias,
venho de um lugar sem chão;
costume e trajes não havia,
palavra não se dizia, então.
Lembro de um instante,
momento de tudo criado,
em que bastava existir
para se sentir amado.
Pensar não era preciso,
de onde hoje regresso;
em cada semblante inscrito
havia todo o universo.
Volto — e de lá nunca saí.
Afinal, quem sou, recordo.
Percebo, então, que viver
é apenas a seguir a bordo.
(do livro Fênix, 2005)
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