Apontador
Não sou a criança que escolhe
apenas lápis estilosos.
Nem o lápis, guiado
por mãos firmes.
Tampouco a borracha
que apaga o erro.
Sou o apontador
que afina a ponta
para traços
mais nítidos.
A cada vez que aponto,
lapido partes de mim
que precisam ser descartadas
e revelo outras, até então ocultas.
Não descarto lápis gastos;
trabalho com eles
até não poder mais apontá-los.
Não sou o carrasco
que impõe ao lápis
um processo doloroso.
Sou o artífice
que renova sua função.
Nem sempre consigo
cumprir meu ofício.
Há lápis
cujo grafite
se quebra
ao ser refinado.
O lápis é inútil
sem o apontador —
e vice-versa.
Juntos, são instrumentos
sem os quais nenhuma obra
ganha forma.
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