Refeição indigesta

 

Fiquei em pé, parada, com a bandeja de refeição na mão porque todas as mesas estavam ocupadas, não por pessoas, mas por bolsas e mochilas que reservavam o lugar. Tal hábito era comum aos clientes de tal self service. Mas naquele dia fiquei mais irritada do que normal, não me pareceu certo. Sentei-me à mesa que tinha uma sacola com compras, pronta para desafiar e denunciar tal conduta. Não tardou para um rapaz se aproximar.

- Deixei a sacola...

Sim, eu vi, mas não está certo reservar lugar – interrompi com tom áspero. 

- Mas eu não estou guardando lugar, eu – 

- Ah, não? Então por que você deixou a sacola aqui? É claro que qualquer um entenderia que a mesa estava ocupada – disse tão irritada quanto ele.

-  Eu a esqueci – concluiu o que queria dizer.

Não me deu tempo para responder. Pegou a sacola, virou-se e saiu.

 

Só então entendi a situação. Envergonhada, me levantei, deixando a refeição quase intacta.

Enquanto caminhava, sentia o gosto amargo do equívoco. A raiva, quando nos domina, provoca uma tempestade num copo d’água, faz de um momento que poderia ser prazeroso, uma refeição indigesta.  

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