Ritual Matinal
Sentava-se à beira da cama,
esticava e batia cada meia,
fazia dobras com os dedos,
deixava-as prontas para vestir.
Eu, fixada nele — ele não me via.
Colocava uma perna sobre a outra,
vestia a meia a partir dos dedos,
ajustando cada dobra ou sobra.
Eu o olhava; ele focado no fazer.
Sapatos alinhados e engraxados
aguardavam o uso do calçador
para facilitar a chegada dos pés.
Eu, atenta — ele alheio ao entorno.
Finalizado o ritual matinal,
passou por mim sem me ver,
tomou seu café pequeno,
saiu devagar, sem se despedir.
O vazio enchi com ausência
daquilo que nunca tive.
Lágrimas furtivas caíram,
mostraram o que eu sentia.
Eu, invisível — nem percebi.
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