Andarilha

 

“Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe.” Humano, demasiado humano – Nietzshe 

 

Cresci ouvindo meus pais dizerem que todo ser humano deveria ter um teto sob o qual se abrigar. A casa, para mim, era símbolo de segurança, mais do que de um lar.

 

Muito jovem conquistei o sonho de ter uma casa própria, o que me levou a criar raízes, a ter permanência em algum lugar.

 

Essas raízes eram tão fortes que poucas viagens fiz ao longo da vida, meus recursos foram acumulados para ter estabilidade. 

 

No entanto, a andarilha que há em mim não se manteve inerte. Ora ou outra me instigava a fazer tímidas mudanças, mudar de bairro, de casa para apartamento na mesma cidade. A mais ousada mudança que fiz foi para uma cidade vizinha.

 

Essa necessidade de me firmar em um lugar me tornou inflexível, e as mudanças internas sempre foram sofridas por isso. 

Para superar essa dificuldade, a vida me desaloja com frequência de minha zona de conforto. Cria circunstâncias para me mostrar que o espaço em que me encontro está apertado, não me cabe mais.

 

A mente foi programada para proporcionar conforto e solidez. Qualquer alteração que não esteja na programação é lida como ameaça e ela aciona o sistema de defesa para se manter onde está.

 

No meu caso, essa defesa é muito forte e é preciso que haja algo extremo para atravessá-la. 

 

Por ter consciência dessa condição, cada vez mais a ânsia de ser andarilha se torna mais forte.

 

Ânsia de acampar e permanecer apenas o tempo necessário para o descanso.  

 

Desmontar minha tenda quando a estrada da vida me chamar, seguir sem destino ou paradeiro, com o desejo de aproveitar o percurso e me adaptar a cada alteração de curso, de cada curva, de cada encruzilhada. 

 

Quero arrumar a mochila com o aprendizado de cada experiência, despreocupada com o que vou vestir ou comer, seguindo onde meus pés me levarem e meu coração me conduzir. 

 

Há um lugar andarilho em mim, deixo minha imaginação solta, ela viaja por lugares nunca vistos, cria enredos, escreve histórias, compõe sentimentos, desenha o que vê dentro de mim. 

 

Mesmo sem me mover, sou andarilha de mim. 

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