O melhor da vida ainda vai acontecer

 

 

“Hoje sei que meus começos

Só vêm se eu aceitar o fim

E as flores que voaram dos meus sonhos

Vão crescer noutro jardim.” O melhor da vida ainda vai acontecer – Oswaldo Montenegro

 

Quando me aposentei, tomei um choque de realidade. Não tinha mais a distração do trabalho, que evitava o confronto comigo mesmo. 

 

A primeira mudança foi a consciência corporal. Ouvi muitos relatos de pessoas que adoecem logo após se aposentar. O que observei, no entanto, foi que a doença já estava instalada antes, mas eu era indiferente aos sintomas. 

 

Descobri meu ritmo interno, bem diferente da hiperatividade que me dominava. 

 

Fiquei frente a frente com conflitos, arrependimentos, sentimento de culpa, antes abafados pela rotina que me mantinha ocupada, até adormecer de exaustão.

 

Veio a culpa de não estar fazendo nada, de ser remunerada sem ser “produtiva”. Culpa em ver meus irmãos ainda lutando com a lida da vida. Aos poucos entendi que eles viviam tão anestesiados quanto eu era, e que chegaria o tempo deles de despertar. 

 

Arrependimento pelo tempo em que não vivi, só sobrevivi. De amizades que não nutri, de como ficava dividida entre cuidar da família e cumprir minhas obrigações laborais, do pouco tempo dedicado aos meus filhos.

 

Percebi o quanto não conhecia o mundo deles, da realidade que eles viviam, e que comodamente quis acreditar ser semelhante à de minha infância e adolescência.

 

Encontrei em meus netos a forma de recuperar esse tempo perdido e de fazer diferente. 

 

Os arrependimentos converti em aceitação de não ser perfeita, em atitude sanatoria. Exercitei o auto perdão, com a consciência de que dei o meu melhor, não podia ser diferente diante do nível de consciência e maturidade (ou falta dela) que tinha. 

 

Depois de adotar providências em relação ao inventário de pendências emocionais que se acumularam por toda a vida, não tenho mais esqueletos no armário, nem fantasmas do passado a me assombrar. Encontrei meu jeito de ser, de estar no mundo, estou em paz com a vida que tenho. 

 

Viver é remover camadas que escondem o sagrado em mim, é fazer das adversidades oportunidades de crescimento, é aproveitar o que de melhor a vida me oferece.

 

Quanto mais simples for minha vida, menor as expectativas e mais brandas as frustrações, maiores são as surpresas alegres por quem se satisfaz com pouco. 

 

Quero acreditar que, ainda que a vida me ponha à prova, o melhor dela ainda está por vir, ou seja, ainda acontece todo dia. 

 

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