Ritual Matinal

 

 

Sentava-se à beira da cama,

esticava e batia cada meia,

fazia dobras com os dedos,

deixava-as prontas para vestir.

Eu, fixada nele — ele não me via.

 

Colocava uma perna sobre a outra,

vestia a meia a partir dos dedos,

ajustando cada dobra ou sobra.

Eu o olhava; ele focado no fazer.

 

Sapatos alinhados e engraxados

aguardavam o uso do calçador

para facilitar a chegada dos pés.

Eu, atenta — ele alheio ao entorno.

 

Finalizado o ritual matinal,

passou por mim sem me ver,

tomou seu café pequeno,

saiu devagar, sem se despedir.

 

O vazio enchi com ausência

daquilo que nunca tive.

Lágrimas furtivas caíram,

mostraram o que eu sentia.

Eu, invisível — nem percebi.

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Coleção Literária com 28 livros de Virgínia Barbosa Leal

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