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Mostrando postagens de maio, 2026

Tear

    Sou de um tempo sem dias, venho de um lugar sem chão; costume e trajes não havia, palavra não se dizia, então.   Lembro de um instante, momento de tudo criado, em que bastava existir para se sentir amado.   Pensar não era preciso, de onde hoje regresso; em cada semblante inscrito havia todo o universo.   Volto — e de lá nunca saí. Afinal, quem sou, recordo. Percebo, então, que viver é apenas  a seguir a bordo.   (do livro Fênix, 2005)

Ondulações

  As águas em mim ondulam   em movimento de vaivém.    É um movimento acalentador, como o embalar de um berço.   Quando a natureza pede passagem  uma força irresistível lhes dá impulso e me vejo  do alto da crista.   De lá, vislumbro o quanto me distanciei  de mim.   Não sei o alcance  das ondas, nem as formas e direções  que irão tomar.   Mas de uma coisa eu sei: perdi-me  das pessoas  que atravessei;   caí no esquecimento da vida, descuidei de mim.   Nessas vagas,  escondo lembranças  inalcançáveis, lugares inacessíveis.   Quiçá me lance  contra a maré para me resgatar desse looping sem fim.   (do livro Invisíveis vozes, 2023)

Minha medida

  Eu sou  da minha estatura, nem mais,  nem menos.   Mas ainda estou crescendo, não sei até onde vou.   Enquanto avanço, minha referência é quem fui ontem e o quanto sou hoje.   Tal medida me contenta, mesmo quando ontem e hoje parecem iguais.   Os detalhes  nunca mentem.   Só eu sei o quanto avancei.        

O que me falta quando estou só

    Não sinto falta quando estou só, nem me sinto plena se estou com alguém.   O vazio já me invadiu, mesmo estando  acompanhada.   Cheguei a transbordar  na solitude.   Vazio  não é insuficiência - é transição,  passagem  para outro estado de ser;   faz-se casulo,  útero espiritual gestando o mistério.   Às vezes pesa, me aperta o peito, me inunda de emoções.   É o espaço criado que revela o que fui e o que ainda não sou.   Quando acolho o vazio,  o tempo de espera  é fértil e sereno.   Nada me falta quando me preencho de mim.  

Perdi-me de mim

  Antes não sabia quem eu era;   sem todos os papeis que ocupo, o que sobraria?   Tal pergunta me angustiava - um vazio sem contorno.   Não bastava ser apenas humana - precisava encontrar algo em mim,  algo singular.   Talvez, por isso, desde jovem faço terapia.   Quem sabe,  por essa razão lembro tanto de meus sonhos – são pistas.   Aos poucos, fui entendendo que não é possível me definir em uma frase.   Assim como muitos, sou diversificada, disposta em vários aspectos.   O tempo, o humor, as experiências me moldam, me mudam.   Não caibo em um conceito – sou impermanente, assim como a vida.   Ao acordar, me pergunto qual a versão em que me encontro –   nem sempre tenho resposta.  

Minha morada

  Tudo era festa  na minha chegada. Naquela casa  sou cuidada e amada.   Por um tempo  Permaneci nela, sem saber de sua existência.   Aos poucos, tomei consciência  de sua presença.   Encanto-me  com paredes e móveis; há lugares escondidos — dizem ser  para minha segurança.   Ela segue comigo, tenho dela  pleno domínio.   Da janela  descubro o mundo, vejo pessoas  dentro  de suas casas.     A cada dia  ela se expande, torna-se mais bonita,  e as pessoas  a admiram.   Descobri  que aquilo que sinto vem dela, assim como  o cansaço  e o sono.   O tempo é voraz:  corrói paredes  e piso:   Sinais  de que o prazo  de locação  está vencendo.   Se não cuidar bem dela,  posso ser expulsa  antes do tempo.   O mais triste  é que, findo o prazo, a casa que habito  não pode ser consertada: não servirá  para ...

Sou uma sobrevivente

    Tenho acompanhado um grupo musical de jovens coreanos que faz sucesso há dez anos.    Ganhei um livro falando sobre a trajetória deles e o quanto foi difícil manter a excelência de seu trabalho.   Em 2018, entraram numa crise  de estafa mental e física e só não desistiram pela união e amor entre eles.   Para mim, são sobreviventes - não apenas pela dureza da vida que enfrentam, mas porque não abandonaram seus próprios sonhos, nem deixaram de levar, nas letras das músicas, mensagens de otimismo realista em meio aos relatos das próprias dificuldades.   Sinto empatia por eles, porque também sou uma sobrevivente.   Passei por etapas difíceis na vida por fazer escolhas erradas e persistir teimosamente no erro.   Deixei que pisassem em mim enquanto reagia com crueldade a pessoas que não me fizeram mal algum.    Por muito tempo fui guiada pelo meu lado sombra enquanto a luz me chamava de volta e eu não ouvia.   Para sobrevive...

O que pode o espelho

  Olho-me no espelho e não me reconheço.   O que ele expõe não é o personagem que criei:  é diferente.   Não me percebo, porque a imagem é de uma desconhecida em mim.   A rapidez  com que mudo me torna um caleidoscópio em movimento.   Movimento tão veloz que não consigo me ver.    Talvez o espelho me oculte para eu não me acomodar na sedimentação.   Quem ele  me mostra acende o desejo  de me conhecer sem me identificar.   A identidade é um porto de águas estagnadas.    

Olhar de criança

    Oswaldo Montenegro disse: “A criança olhou para mim e perguntou: a flor tá nua ou tá bem-vestida?”   A mente da criança é poética:  vê o mundo  pela lente da imaginação.   Ela não distingue  a beleza da roupa  da beleza de quem a usa.    Para ela,  a natureza se cobre  de beleza,  e a nudez  ainda não é tabu.   Nós, adultos,  Dificilmente formularíamos uma pergunta assim,  porque nossa mente  se encheu de certezas.   Talvez por isso  as perguntas das crianças  causem tanto impacto: elas nos arrancam  da zona de conforto  e devolvem o olhar  que perdemos  ao longo do tempo.

O portal do imaginário

    A magia entra em cena  ao pavimentar a estrada  com fascínio  e ambientar o acostamento  com flores.   Quando ela está no ar,  os pés quase não tocam o chão: dançam no ritmo  da aventura.   A imaginação faz brotar  personagens de uma histórias  sem começo nem fim, onde tudo é possível.   Ali, qualquer uma pode ser  a Bela Adormecida, despertar em outra dimensão; o Patinho fascinado  com a própria beleza,  alheio à rejeição; a Chapeuzinho  que preserva a inocência, mesmo diante  das investidas do Lobo.   Nessa estrada,  uma aura protege a fantasia,  os desejos,  as invenções.   Um campo encantado  de possibilidades se abre  para quem acredita  no imaginário e se aventura  por suas paragens.   Encontre  o seu portal.  

Manto azul

  O sol adormece sobre o cansaço do dia. Na penumbra das horas, a vida repousa, e as trevas cumprem seu destino.   No encontro da noite com o dia, a lua entrega ao sol sinistros miasmas, em cíclico ritual de cremação.   As últimas lágrimas de orvalho derramam-se sobre as folhas, umedecem a terra, acordam a semente.   A aurora recolhe o véu que esconde a pálida manhã e agasalha o novo dia com seu manto azul.   (Do livro Manto azul, 2021)

Labirinto de espelhos

  Conhecer-se é ver-se multiplicado em um labirinto de espelhos. Ali, imagens distorcidas confundem os reflexos sobrepostos que as compõem.   Quanto mais se adentra o labirinto, mais nítidas e distintas elas se tornam. Em algumas, a pessoa se reconhece; em outras, há estranheza.   Conhecer-se é aventurar-se no labirinto de si, com compaixão, humor e curiosidade.   Há lugares inacessíveis, e o recuo será necessário, até o momento propício de se abrir passagem.   A cada travessia, imagens ocultas se revelam.   Para não se perder lá dentro, é preciso lembrar de levar  o fio numinoso do amor e, com ele, marcar o caminho de volta.   (do livro Invisíveis vozes, 2023)

Fecundar-me

  Às vezes me flagro com o olhar fixo no vazio,  a mente oca, sem nada sentir.    Não sei se a sensação é de conforto  ou de estranhamento.   Quando estou assim,  sou pele de cobra  deixada para trás, sombra a flutuar  no vácuo do tempo.   Mudo a cada momento  e, muitas vezes,  nem me reconheço.   Perturbam-me  as oscilações de humor; volto ao olhar errante  quando a vida dói.   Sou o obstáculo  que atravessa meu caminho —  o obstáculo  e a solução.     Se me apego  a alguém  ou a alguma coisa,  vejo-me de fora.   Perco-me sempre  que esqueço de me voltar  para dentro.   Quem sabe, um dia eu me fecunde?  

A imaginação e eu

  A imaginação  é como um desenho que ganha vida ao ser visto.   É memória de quem sou em um lugar desconhecido.   É pulsação do universo — eu nele, ele em mim.   Sou criança  que inventa mundos com as mãos  imersas no sonho.   Devaneios  que adivinham  o invisível,   magia  que delineia mapas de tesouros ocultos.   Estou imersa  no campo que responde  à minha vibração e dá corpo  ao que imagino.     Como o inventor que descobre, ao fazer, o que já sabia.

Desmantelo da tarde

  A transição da noite para o dia se dá de forma suave e sutil. Aos poucos, a lua se afasta e o céu clareia em tom esmaecido.   Já na passagem da tarde para a noite, o céu parece se desmantelar: as cores se intensificam, o azul se tinge de argila no quebrar da barra.   A saída de cena da lua é discreta; já o sol resiste até o último instante.   A lua reverencia o astro-rei que, imponente, deixa seu rastro mesmo depois de se pôr.   Questão de temperamento.   (do livro Vidas mutantes, 2024)

Dados

  Ao fazer escolhas, cerco-me de dados, mas a vida que me é dada nem sempre me mede.   O destino dado é imprevisível.   Enquanto os dados giram, a sorte é só mais um dado.   Quem é dado costuma aceitar tudo o que lhe é dado.    

Imunidade

    Achava que a consciência  me isolava,    como um animal  que não se mistura com outra espécie.   A natureza  prova o contrário: já vi uma ave alimentar peixes.   O que isola  não é a consciência, é o medo  de predadores.   Ao ampliar a visão, destranquei portas   A lucidez vê no outro minha própria imagem    Quanto mais  me conheço, mais desenvolvo  imunidade à exclusão.    Somos uma alcateia:   Os que seguem à frente protegem os que vêm atrás.  

Fragmentos

  Há muitos fragmentos orbitando em mim, outros perdidos.   Alguns já consegui reunir com a cola da vontade, mas deixaram cicatrizes.   Agora os costuro com o fio dourado do amor que ilumina cada retalho.    Cada fragmento restaurado transforma  cicatriz em ouro.   Ainda não estou inteira, mas cada parte que recupero amplia e cura, a cartografia do meu território.    

Eletromagnetismo

  Sempre me perguntei por que meus desejos não se realizam. O eletromagnetismo me serve de metáfora O pensamento emite, o que sinto atrai ou repele. O desejo é uma onda que lanço ao mundo, mas só retorna se consigo atrai-la. O que emano e o que me alcança precisam se reconhecer. É como um bumerangue: o impulso o lança e o movimento o devolve. Se o brinquedo está gasto ou incompleto, o movimento não falha. Não há retorno Falta eco.

Convite

  Aceitei o convite para um sarau que mais parecia um serão ou melhor, um velório.   A culpa desfiava pecados sem qualquer constrangimento. A desventura regozijava-se,  tendo o destino como cúmplice.   No canto da sala, comentários nostálgicos rememorando desgostos ao sabor de chá amargo. O passado tinha gosto de fel.   Grave piano em marcha fúnebre, anunciava a iminência do devir. Ninguém se acercava do caixão Ninguém lamentava o defunto.   Saí atônita do velório inusitado. Como não queria ficar só,  a insônia me fez companhia.    Tinha meu rosto o morto-vivo.   

A mãe de ...

    Ser mãe não é só um título, é uma identidade.   Você não é mais conhecida pelo seu nome, ou pelo que faz: vira “mãe de ...”   Sua vida vira de ponta cabeça: a sala de visitas vira parquinho, as paredes da casa  passa a ser obras de “arte”.   As noites deixam de ser suas: pertencem ao choro, à mamadeira,  à troca de fraldas.   O marido fica em segundo plano, e o  guarda-roupa   se resume a roupas confortáveis.   Os passeios tornam-se dos filhos. Você vira motorista: para encontrar  amiguinhos, para festas na escola, para consultas médicas.   Bolsa de grife, nem pensar – agora carrega um mundo na bagagem.     Amigas passam a ser  as mães dos amigos deles; sua vida gira em torno deles.   Quando crescem,  você também perde o sono – esperando que voltem para casa.    Mesmo adultos,  a mãe também é colo: para consolar  quando o namoro termina, para aconselhar para a...

Amor e fé se entrelaçam

A fé não é crença estéril nem produto da mente;  é saber que não se prova.   Fé sem amor, o vento leva, carece de pilar.  O amor sem fé  me atravessa  me imobiliza.   Amor e fé não se confundem: a fé mantém o amor aceso o amor abre espaço para a fé.    A vida só tem sentido se a fé me arrebatar  com o amor me conduzindo.  

A noite escura da alma

  “ A noite escura da alma é um processo muito profundo e muito radical.” — Tiago Machado   Eu já atravessei a noite escura da alma sem saber nomear o que estava acontecendo comigo.   Eu me senti vazia. A vida não tinha mais sentido. Perdi o interesse por tudo: o trabalho, as relações, aquilo que me dava prazer.   Fiquei flutuando num vazio escuro, sem norte, sem esperança, sem sentir.   Não era depressão. Era algo mais profundo, mais desolador, que nem o medo era capaz de penetrar.   Estava plenamente consciente e, ao mesmo tempo, num vácuo que mais parecia inexistência.   Isso não me impedia de levantar da cama e fazer o que era preciso, mas o movimento era automático.   Algo me impulsionava a continuar seguindo, confiante de que, uma hora, esse estado d’alma iria passar e algo novo viria dessa experiência.   Estava gestando um novo eu, mas o antigo debatia-se, pois sabia que sua hora derradeira havia chegado.   Uma semente surgiria e ...

A imaginação e eu

  A imaginação  é como um desenho que ganha vida ao ser visto.   É memória de quem sou em um lugar desconhecido.   É pulsação do universo — eu nele, ele em mim.   Sou criança  que inventa mundos com as mãos  imersas no sonho.   Devaneios  que adivinham  o invisível,   magia  que desenha mapas de tesouros ocultos.   Estou imersa  no campo que responde  à minha vibração e dá corpo  ao que imagino.   Como o inventor que descobre, ao fazer, o que já sabia.  

Apontador

    Sou o apontador  que afina a ponta  para traços  mais nítidos.    Sou o artífice  que renova  sua função.   O lápis é inútil  sem o apontador —  e vice-versa.    Juntos, são instrumentos  sem os quais  nenhuma obra  ganha forma.  

Luto da paixão

  Primeiro vem o encantamento.  Aí, você põe um véu para preservar  a sensação viciante.  Depois, vem o desejo do amor idealizado. Por fim, surge a expectativa do modelo perfeito.   Então se vive anos sem conhecer quem está do lado, esperando que ele atue na peça teatral que não escreveu.   Uma dia, a expectativa é frustrada, o amor idealizado se desfaz, a decepção se instala, Vive-se o luto da paixão.   A dor sentida é de ver a farsa  desmoronar, da realidade destruir o conto de fadas,  de perder a pessoa que nunca existiu.   Há quem continue procurando  um príncipe encantado.   Quem decide tirar o véu é capaz  de conhecer a pessoa antes encoberta.   Assim o amor dará seus primeiros passos na convivência com    alguém de verdade.    

Sonho auspicioso

  Minhas crias brincavam de trocarem sinais  luminosos   na mata    como vagalumes que irradiam a própria luz   não percebi a experiência mística   interrompi o folguedo para oferecer alimento ao corpo    despertei do sonho auspicioso   exultante em saber que já não precisam de mim.    

Pequenas gentilezas

Costumava ser distante, emanava  uma energia de proteção que afastava  as pessoas.   Quem conseguia chegar perto  é porque me transmitia confiança o u era tão manipulador(a) que eu  não percebia o perigo.   À medida que fui amadurecendo,  passei a confiar em minhas percepções  e até a tomar a iniciativa  de me aproximar.   Hoje tive uma grande alegria,  fruto do meu trabalho interior:  uma pessoa se aproximou sorrindo  e me abraçou.   Percebi que já estou me abrindo, deixando — e até convidando —  as pessoas a se aproximarem.  Já posso demonstrar quem de fato sou, deixar meu eu real se expressar.   A muralha que existia, aos poucos,  foi se tornando permeável.  As pessoas estão me presenteando  com pequenos gestos de gentileza,  como se oferecer para carregar  uma sacola, amarrar meu cadarço,  me ajudar a descer uma calçada.   Quero retribuir as gentilezas  que ve...