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Mostrando postagens de junho, 2026

Reorganização interna

  Custo a conciliar razão e coração, como se fossem duas partes separadas de mim.   Se a criança me comanda, sou lançada tal qual uma bola que rola em brinquedos.   Se a razão segue à frente, me falta  encantamento, sinto  frio insosso.   Todos querem exclusividade, ninguém pergunta o que eu quero.     O hábito me leva ao condicionamento, o condicionamento à repetição, a repetição ao automatismo.   Minha imaginação é um cavalo chucro que não quero domar.   Enquanto ela lidera, todos os extremos se curvam, se conciliam.   É ela  que reorganiza a hierarquia  interna.   Então a criança não quer mais mandar: ensina a razão  a brincar, e o coração  a ouvir.  

Não precisa de convite

É como um sensor de presença: basta se aproximar que ele se ativa.   A vida não precisa de convite, nem de portas abertas para o livre trânsito.   A liberdade é você quem cria. Não espere ser chamado.   Primeiro, há que soltar as amarras ilusórias.   Dar o primeiro passo, aproximar-se, demonstrar interesse.   Então, a vida responde automaticamente.

Sublimação

  Quando eu era criança — e até hoje — não me limito a assistir a um filme: entro nele, sou uma das personagens.   Faço caras e bocas, me emociono, choro e rio.   Naquele tempo, eu já havia congelado as emoções; elas precisavam de uma válvula de escape: escolheram a arte.   Elegi a escrita para nomear o que está confuso, o que ainda não compreendo.   É a forma que encontrei de sublimar não apenas a agressividade e a ansiedade, mas também a energia sexual.

Maior que eu

  Às vezes o sonho é tão grande que me ultrapassa. Me encanta, me seduz e depois me escapa.   O sonho é uma lamparina que se avista ao longe, um farol aceso na noite fria: luz que, ao iluminar, não escolhe viajantes, nem promete uma viagem amena.   Já me deixei levar por ele — a correnteza me arrebatou e me lançou contra as pedras.   Das pedras, tornei a vê-lo: um ponto distante e firme sobre o mar da vida.   À margem do sonho perdido, eu, anfíbia, sigo, enquanto as estrelas foram minhas guias.

Sem regalias

  Sonhei que a empresa em que trabalhava extinguiu todos os cargos de chefia,  mas a carga de trabalho continuou  a mesma.   Fiquei matutando: já sou aposentada  há mais de dez anos, por que   esse sonho agora?   Então a voz da intuição respondeu: o trabalho espiritual  e o de autoconhecimento não tem regalias, todos precisam enfrentar a carga de esforço necessária  ao próprio aprendizado.   E a recompensa é o progresso do indivíduo.   O espiritismo fala de bônus horas adquiridos com os trabalhos no mundo espiritual. Gosto de pensar que eles não representam privilégios, mas o regristo do empenho e da dedicação que ampliam o nível de consciência.    Ainda que se ocupe cargo de liderança, isso faz parte da trajetória evolutiva.   Não há privilégios:  a cada um é designada a tarefa  de acordo com seu nível de aprendizado alcançado.    Creio que serei encaminhada para a esfera de consciência compa...

Oito ou oitenta

  Já fui um cavalo sem viseira, desenfreado: passava por cima de tudo.   Agora sou  uma tartaruga de passos curtos. e cautelosos.   Deixo tudo  para depois, mas depois é um lugar inatingível:   depois arrumo  as roupas, lavo os pratos.   Não encontro um meio termo entre oito e oitenta.   Talvez a solução seja não fazer nada -   como sempre.

Invisíveis vozes

  Com frequência, me sinto atormentada por rumores mentais: vozes rarefeitas, sussurros queixosos de mim.   Duelo psíquico, presságios de eventos improváveis. Gritos de alerta em noites insones.   Ruídos ruminam narrativas confusas, invadem meus sonhos.   Múltiplos discursos, em tom grave e intimidador; vozes que soam amistosas escondem manipulação.   Em mim, há um clamor indefinido, uma súplica vazia.   Um lamento sem sentido a abafar a voz lúcida, preciosa para escutar, de auscultar.   Dominarei a algazarra que me tomou de assalto, essa sonoridade temerosa?   Acaso o singular me eximirá do estigma de ser comum?   (do livro Invisíveis vozes, 2023)

Holograma

  Não existe o outro e sim a projeção que fiz dele em minha mente.   Ao menos, é o que dizem   Se tudo que vejo já está em mim há um mundo real?   Se quem eu sou e quem você é são espelhos um do outro, que é o eu real?   Isso faz sentido.   Mas se tudo  que vejo sou eu,  em variadas perspectivas, não há nada  além de mim?   Nunca saberei quem você é, nem você,  quem sou.   Somos hologramas em um mundo virtual.   Ou, então, espectros vagando na sombra  de si mesmos.   Talvez essa  seja a razão da falta e da solidão.   Se eu sou você, me conhecer me fará tangível.   Nessa vertente, a paixão é a ilusão da separação.   Amar é me unificar para que os hologramas ultrapassem a mente.   Enquanto isso  não acontece, haverá conexão  real?

Fracasso

    Quando me separei, Achei me senti Uma perdedora.   Fiquei arrasada   Depois de outro casamento, entendi que nenhuma relação se perde.  Há encontros que preparam terreno para outro.    O suposto fracasso desenvolve resiliência, faz parte do processo, é raro acertar de primeira.  O fracasso só é problema  quando vira desistência. Às vezes, ele se torna vitória disfarçada.    Não se deixe abalar  a ponto de duvidar de si.  Olhe para trás e veja  quantas vezes você superou  situações que pareciam insolúveis.

Crise

  Antes de melhorar, pioro. Antes da clareza entro em confusão. Antes de acertar — erro.   O tempo parece ter parado ou esticado demais.   O caos tem sua própria lógica. A ordem virá?   A voz da mente sussurra:   vai passar… solte, libere, deixe acontecer, confie.   Já vivi isso antes. Mas cada vez parece diferente. Cada vez parece a primeira.   Observo, impotente,  o processo,  sem saber como ou onde começou nem o que virá depois…   O coração tem sua própria  linguagem, percebo o que ele diz:   seja feita a Vontade de Deus, no tempo Dele.   A ordem,  a harmonia e a paz    me aguardam do outro lado.    

Base

    Sinto ânsia por voar, mas o medo de altura me prende ao chão.   Escalar montanhas me deixa segura: tenho o chão  sob os pés.   Se tenho a base forte, solto a imaginação.   Ela, sim, se aventura em voos cada vez mais altos e distantes.        

Banalizar-me

    Ainda me pego  sem valorizar o que sinto:  surda aos ruídos de fundo,  cega ao que importa,  tornando vulgar  o que é singular.    A corrente pueril  me arrasta  para longe do instante,  das memórias,  do sentido.   Em contrapartida,  Aborreço-me por ninharias, não me levo a sério - banalizo-me.   Não é fácil  ter olhos e ouvidos num mundo cego  e surdo.  

Água mole em pedra dura ...

  Por muito tempo, sustentei a imagem  de corajosa, quando na verdade,  era inconsequência - uma forma  de esconder a covardia.   A toda hora perdia o momento para responder, fazer, reagir. Depois ficava ruminando o que deveria ter dito, como deveria ter agido.   Quando um homem apontou uma arma para mim, no trânsito, eu fiquei  sem reação.  E quem estava em risco maior  era minha filha pequena.   Quando vejo, em filmes, pessoas comuns realizando  atos heroicos, eu choro e me recrimino, porque não me sinto capaz de agir colocando minha vida em risco, mesmo que seja para salvar um filho.    O tempo é uma mortalha  tecida a cada segundo,  enquanto a vida se tece com presença.  As duas caminham lado a lado,  até o dia em que a mortalha fica pronta.    Enquanto isso não acontece, há que tecer a vida com a linha do amor para que  a mortalha brilhe como o sol que abrirá novos caminhos. ...

A trajetória do medo

Quando eu era criança convivi com o terror: vozes hostis que ameaçavam se voltar contra mim.   Como pedir ajuda, se quem eu temia era quem deveria me proteger?   Para sobreviver, criei a máscara do poder — tornei-me inatingível.   Quando cresci, a máscara se desgastou: o medo fugia pelas frestas.   Via fantasmas em plena luz do dia; uma sombra inominável me intimidava.     Era real o que sentia? O que aconteceria se a confrontasse?   Um anjo me disse:   “quanto mais o amor se expande em você, mais a nuvem negra se dissipa.”   Quando a nuvem negra volta a me rondar, ergo os olhos e percebo: o céu azul e o sol irradiante ainda estão  a me abrigar.

A torre

  Urge sejam rasgados códigos  e convenções.    Desmascarar mitos e utopias.   Queimar símbolos, ícones, emblemas e flâmulas.   Indispensável anular sistemas, ideologias, doutrinas e dogmas.    Destruir paradigmas, valores, crenças e convicções.   Ser sugado pelo vácuo das ideias flutuar no vazio da mente,  precipitar-se no abismo  do nada é preciso,  para, no útero cósmico,    seja concebida a alma divina.  

A tesoura

Minha tesoura age sozinha   escolhe o que separar   como o jardineiro, ao aparar  a grama,   o veterinário, ao fazer a tosa,   o artesão ao lapidar a madeira      o médico ao extirpar o tumor   intervenções necessárias mas   doridas   aparta o excesso do necessário    cortes profundos que me ferem como navalha   Preciso da tesoura mas resisto a ela por temer a poda.   Não fosse  a tesoura afiada, não cortaria camadas endurecidas.   Eu continuaria rígida como pedra.

Eletromagnetismo

    Sempre me perguntei por que alguns sonhos não se realizam.   O eletromagnetismo me serve de metáfora:   o pensamento emite, o que sinto atrai ou repele.   O desejo é uma onda que lanço ao mundo, mas só retorna se consigo atrai-la.   O que emano e o que me alcança precisam se reconhecer.   É como um bumerangue: o impulso lança e o movimento devolve.   Se o brinquedo está gasto ou incompleto, o movimento falha.   Não há retorno, falta eco.   Preciso aprender a ser receptiva

Durante

Durante Enquanto a vida é amada, o amor pulsa pleno, cresce; o durante  modela a vida, o instante vibra, ressoa. O amor respira  durante o instante: sentimentos afloram, descobertas surgem, o sincronismo desperta. Antes, é preparação,  Depois, integração. Antes e depois, sombras que rondam o instante. Durante o fluxo da vida tudo se manifesta  muda e se amplifica; Enquanto houver  movimento há vida,    tudo floresce, durante o amor.  O instante é  um retalho do tempo, O durante  é o que acontece no instante.    O instante é a chance  de costurar os retalhos, e eles tomarem forma.    Mas isso só acontece  no durante.

Não quero ter razão, quero ser feliz

Houve uma fase de minha vida em que eu discutia com as pessoas por motivos banais, e isso me rendeu muitas inimizades, até no seio da família.   A imagem que as pessoas tinham de mim era de uma alguém irascível - e eu era. Por esse motivo, não me davam crédito, até quando eu tinha razão.   Depois de sofrer várias vezes as consequências do meu desequilíbrio, resolvi silenciar – não porque o outro tinha razão, ou por medo do confronto – tinha medo de mim mesma, das minhas reações.   Então veio a fase em que as pessoas achavam calma. Não sabiam quanto custava me conter. Por dentro, sentia um vulcão prestes a entrar em erupção.   Passei a observar minhas emoções, sem deixá-las transbordar nem as aprisionar. Respirava e soltava.   Aprendi a escolher minhas batalhas, a não levar tão a sério críticas infundadas, e a não tentar convencer o outro de que “tenho razão”.   Quando ouço alguém dizer que não quer ter razão, quer ser feliz, fico pensando o quanto de felici...

Ambiguidade

    Por que  a maioria das pessoas fogem da intimidade?   por que  não me interesso por quem  pode oferecê-la?   Desejo uma parceria.   Por que não me envolvo?   Sonho com alguém que me ame de verdade.   Mas tenho medo de me perder no amor.   Há homens que se afastam quando percebem que não preciso de muletas.   Não abro mão da autonomia.   Tenho medo de depender e ser abandonada.   Costumo regular a distância entre mim e o outro.   Tenho critérios para me relacionar.   Será que alguém passará pelo meu filtro?   Eu foco em mim para ser  uma pessoa melhor.   Será que,  na verdade, estou me isolando?   Será que é possível um acordo entre a parte que deseja e a que cria obstáculo?

Melhor andar só do que mal acompanhada

  Estar só ou com alguém, vazia ou preenchida, não tem a ver com falta.   Às vezes me sinto vazia, estando só ou com alguém. Às vezes me sinto plena em qualquer circunstância.   O vazio não é insuficiência: é fase de transição para outro estado de ser.   O vazio é o casulo, o útero espiritual que abriga o novo.   É o espaço criado pela própria mente que quer se expandir.   Quem bem acolhe o vazio espera o tempo essencial para a gestação de um novo eu.   Sentindo falta ou não, melhor andar só do que mal acompanhada. Quem anda com fé nunca está só.

Coleção Literária com 28 livros de Virgínia Barbosa Leal

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VIRGÍNIA LEAL: Sou livre pensadora, trago meu ponto de vista à reflexão nos meus escritos. "Tenho 28 livros publicados e, ao longo da minha trajetória, atravessei diferentes formas de escrita e temas: filosóficos, sociais e, hoje, autorreflexivos em forma de crônicas poéticas e poesias. Com o tempo, mudaram meu olhar, meus interesses e também os leitores. O que permanece é meu propósito: levar reflexão e questionamento através da palavra. Tudo o que escrevo nasce das leituras que fiz e das experiências que vivi. É apenas meu modo de olhar a vida. Agradeço a todos que caminham comigo através da escrita e ajudam minha mensagem a seguir adiante", Virgínia Leal. _____________________ Crônicas da Vida Baixe e Leia o livro  Crônicas da Vida em PDF inda estar num nível menor de imaturidade evolutiva. _____________________ Ciclos da Vida Baixe e Leia o livro  Ciclo da Vida em PDF A vida se renova. A cada instante, uma pessoa nasce, ao passo que outra morre; enquanto um bebê dá os pri...