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Mostrando postagens de março, 2026

Você tem opinião própria?

    “Muitos de vocês estão completamente desatentos ao fato de que possuem opiniões aceitas como produtos comprados prontos. Aceitaram sem se perguntar se são realmente suas e por que as aceitaram.” — Palestra 051 do Pathwork   Eu tinha a convicção de que possuía opinião própria — e ainda dizia que só aceitava a opinião de outra pessoa quando ela reverberava em mim.   O Pathwork ensina que a opinião própria não se sustenta diante de uma verdade objetiva, mas que é melhor ter uma opinião errada, se ela for de fato sua, do que sustentar uma opinião correta que não seja.   Quando ingressei no estudo do Pathwork, rejeitei muitos ensinamentos porque não queria renunciar à “minha opinião”. Com o tempo, percebi o quanto isso era ilusório. É difícil ter uma opinião verdadeiramente original, pois, ao longo da vida, assimilei pontos de vista baseados em interpretações — muitas vezes equivocadas — das minhas próprias experiências. Além disso, a verdade possui muitos ângulo...

Trajetória

  A brisa morna da manhã  Levou a inocência pueril Que via beleza em tudo   O pouso em solo árido Despetalou a candura Que nunca mais voltou   Só restou um rijo talo A dormir desiludido  Em sua morada de gelo   Então o broto vingou e se vestiu de flor Agora ele sabe de si  

Queres me conhecer?

  Para me conheceres  Não mostro a ti a face Que engana e seduz   Para saber de mim Me vejas em cada verso Que fala o que não sei Mas o que o verso diz   Eu sou o que te afeta revira tuas entranhas  o que tentas esconder   Eu sou a flecha que lanças Bumerangue que volta para ti   Se queres saber de mim Saiba, no íntimo, quem és Que eu, espelho, revelarei

Reposicionamento

    Deus conhece minha ânsia de ser uma pessoa melhor, mas a resistência ainda me atravessa.   Então, Ele me ofereceu dois caminhos para o despertar: os sonhos e a escrita.   Quase todos os dias sou abençoada com a lembrança de sonhos reveladores — alguns iluminam meus pontos cegos; outros confirmam o que já reconheço e venho trabalhando, sinalizando o fechamento de ciclos.   Muitas vezes acordo cansada, não pelo trabalho espiritual em si, mas pelos equívocos de interpretação, pela resistência e pela teimosia em não ver.   Aos poucos, o processo se torna mais suave. Com a ajuda da minha terapeuta, decifro o que antes era enigma. A cada dia, me reposiciono dentro de mim — e, por consequência, na vida.   Hoje compreendo, por experiência própria, o que Jesus disse: “pedi e obtereis”. O pedido precisa ser sincero — e é preciso estar disposto a pagar o preço.   No caminho do autoconhecimento, enfrentamos turbulências e infortúnios que, muitas vezes, nó...

De novo?

    Há uma história que costumo contar: há um buraco na calçada. Na primeira vez, você não o vê, cai e pede ajuda para sair. Na segunda, você já sabe — ainda assim cai, mas consegue sair sozinho. Na terceira, muda de calçada.   Não se muda da noite para o dia.   Repeti três vezes o mesmo padrão doentio de relacionamento: no primeiro, não havia consciência; no segundo, eu sabia — e, ainda assim, repeti compulsivamente; no terceiro, não evitei entrar, mas reconheci o padrão e saí.   A mudança é processo, tem etapas — e a repetição faz parte dele.   Cada queda não era a mesma. O buraco mudava. Eu também.   A repetição não é círculo, é espiral:   a cada volta, um novo nível de elaboração.   Até que algo se assenta. Até que a mudança fica.   Hoje, quando repito o que já sei que não deveria, não me recrimino.   Observo o que, em mim, já mudou — e respeito   o tempo da cura.  

Os últimos serão os primeiros

    Não gostava do meu nome: eu era sempre uma das últimas a ser chamada. Depois, passei a me reconhecer nele — V de vitória, Virgínia de virtudes.   Hoje vi, na prática, que os últimos podem ser os primeiros.   Era uma fila, tipo trenzinho. Em vez de crescer atrás, crescia à frente. A escolha de quem liderava era aleatória. Imagino a angústia de não ser escolhido, o medo de ficar para trás.   Mas aconteceu o inverso: ninguém o escolheu — e, por isso mesmo, quem estava à frente precisou chamá-lo. E ele ficou, definitivamente, na frente.   Percebi que ficar por último é um conceito relativo. Depende do que se valoriza, do tempo que se mede, do olhar que compara.   Eu era das últimas a receber a prova e das primeiras a entregá-la. Das últimas a saber a nota — e, muitas vezes, a que tirava a maior.   Sempre tive a sensação de atraso. Via os outros avançarem enquanto eu demorava — lenta para assimilar, resistente a certos conceitos.   Mas, quando...

Ciclos da vida

    “Onde você acha que acaba, começa.” — ditado indiano   A vida é cíclica; não tem começo, meio ou fim. Nascer, viver e morrer são apenas marcos, assim como as fases da vida.   Quando se acredita no fim, é o apego que fala — a resistência em sair da zona de conforto. Acredito que todo fim é um novo começo. É preciso perceber quando um ciclo se fecha e outro se inicia.   Assim são os relacionamentos. Quando não entendemos que um ciclo se encerrou, engessamos a relação e a tornamos estéril. Não há fracasso em um relacionamento: ele sempre traz aprendizados que nos dão resiliência, nos ensinam limites, tolerância e autoproteção, e revelam aspectos de nós que desconhecíamos.   Pessoas vêm e vão. Algumas ficam; outras nos preparam para o próximo encontro — desde que estejamos dispostos a reconhecer nossos erros e validar nossos acertos.   A vida é cíclica e, se acompanharmos seu movimento, o percurso tende a ser mais suave, a despeito das intempéries, com...

Ritual Matinal

    Sentava-se à beira da cama, esticava e batia cada meia, fazia dobras com os dedos, deixava-as prontas para vestir. Eu, fixada nele — ele não me via.   Colocava uma perna sobre a outra, vestia a meia a partir dos dedos, ajustando cada dobra ou sobra. Eu o olhava; ele focado no fazer.   Sapatos alinhados e engraxados aguardavam o uso do calçador para facilitar a chegada dos pés. Eu, atenta — ele alheio ao entorno.   Finalizado o ritual matinal, passou por mim sem me ver, tomou seu café pequeno, saiu devagar, sem se despedir.   O vazio enchi com ausência daquilo que nunca tive. Lágrimas furtivas caíram, mostraram o que eu sentia. Eu, invisível — nem percebi.

Entre o amor e o que você sente

  Eu achava que amar era aceitar tudo do outro. Demorou, mas aprendi: eu não amava quem me fazia sofrer.   Sem perceber, escolhi alguém pela forma como me fazia sentir — pela intensidade com que tocava minhas feridas emocionais.   Quem ama deseja o bem do outro, cultiva cuidado, oferece o melhor de si. Mas já estive com quem despertava em mim o que eu tinha de pior.   Aceitar qualquer atitude não é amor. É renunciar a quem sou, é me diminuir para que a crueldade cresça, é aprender a chamar de conforto aquilo que, no fundo, é dor.   Eu não sabia, mas o que me atraía era o que me era familiar.   Amar é aceitar o outro como ele é — mas não é aceitar abuso, grosseria ou manipulação. Mesmo que existam momentos de felicidade, eles não justificam o que fere.   Hoje, quando alguém desperta meu interesse, eu me observo. Escuto o que sinto quando estou ao lado dele.   Porque é aí que está a chave: saber se escolho com consciência ou se apenas repito, em sil...

Queres me conhecer?

    Para me conheceres  Não mostro a ti a face Que engana e seduz   Para saber de mim Me vejas em cada verso Que fala o que não sei Mas que o verso diz   Eu sou o que te afeta revira tuas entranhas  o que tentas esconder   Eu sou a flecha que lanças Bumerangue que volta para ti   Se queres saber de mim Saiba, no íntimo, quem és Que eu, espelho, revelarei  

Desengano

  “Eclesiastes não oferece respostas fáceis nem consolo superficial, ele nos convida a  olhar de frente e confrontar a realidade da existência e a fazer um exame profundo e consciente da realidade.” @AOdiseeia_Interior    Há um ditado que diz: “ Eu era feliz e não sabia”. A ignorância e a alienação pode provocar essa sensação, mas a felicidade não é real, é uma ilusão que nos tira da vida.   Por outro lado, ser consciente, buscar a verdade é desconfortante e não promete felicidade.    Há momentos em que sinto que viver não tem sentido, e o que busco nunca estará ao meu alcance. Não sei se o que estou buscando irá coincidir com o que vou encontrar, e a maioria das vezes não é.    Os ideais e virtudes nem sempre são recompensados durante a existência, a justiça é um ideal inalcançável, o amor genuíno é um sentimento quase impossível de sentir e praticar.    Há dias em que acordo sem forças para começar o dia e me pergunto: para q...

Maior que eu

    Às vezes o sonho é tão grande  que me ultrapassa, me escapa me encanta, me seduz  e depois me abandona.   O sonho é uma lamparina ao longe  Um farol aceso na noite fria luz que não escolhe viajante Nem promete viagem amena.   Quando me deixei levar por ele a correnteza me arrebatou e me lançou contra as pedras.   Das pedras tornei a vê-lo quase um ponto distante vagando no mar da vida.   À margem do sonho perdido Eu, anfíbia, deixei ele seguir. As estrelas foram testemunhas.

Mulher: ser do fazer

    A menina é livre no reino da imaginação.  A adolescente desbrava, apaixona-se. Mulher: receptiva, acolhedora, geradora;  A anciã integra a menina, a adolescente, a adulta e, em seu caldeirão alquímico, transforma experiências vividas em sabedoria.   A mulher é fértil e abundante em todas as fases da vida: na imaginação, na criação, na consciência de si e do mundo, no amor.

Nau à deriva

  Ao ondular o mar da vida Comando minha nau Assim pensava que fazia   Mesmo sem levar carga Tem o peso das memórias Que sussurram lamentos   Da face contraída e tensa pelo esforço de esconder nem mesma sei o quê   Dos ombros carregados  De desejos e medo  Que eu mesma reprimo   Não fosse o peso de tal fardo  O vento sopraria a meu favor Sem esforço para seguir   Não sou comandante da nau Forças sinistras ancoram O alegre e livre viver   Não fosse a vontade firme  A disposição em me soltar O empenho em me superar A nau já estaria à deriva  

Escolha alguém pelo que ele de faz sentir

    “Você não deve se relacionar por amor, mas pelo que essa pessoa te faz sentir.”   Eu achava que amar era aceitar tudo do companheiro. Demorou, mas descobri que  não amava quem me fazia sofrer.  Sem saber, eu o escolhi pela forma como me sentia com ele, como ele intensificava minhas feridas emocionais.    Quem ama quer o melhor para o outro, proporciona bem-estar, lhe oferece o que ele tem de melhor. Já me relacionei com alguém que despertava em mim o que eu tinha de pior.    Aceitar qualquer atitude do outro não é amor, é renunciar quem sou, é me diminuir para que a crueldade cresça, é me sentir confortável com a dor porque é a única forma que aprendi de conviver com alguém. Ignorava que o que me atraía em alguém era o que me era familiar.   Amar é aceitar a pessoa como ela é, mas não é aceitar abuso, grosseria, manipulação. Ainda que ela tenha qualidades que me faça ocasionalmente feliz, isso não é suficiente para justificar ma...

Durante

    Enquanto amar a vida Ela ressoa plena Durante forma e expressa  Enquanto o instante dura No agora exercita e vibra   Enquanto o amor respira sentimentos afloram descobertas surgem desperta o sincronismo   Antes, é preparação  Depois, só integração Antes e depois, ilusão   Durante o fluxo da vida Todos e tudo acontecem Tudo muda e se revela  Enquanto houver movimento o amor se espande e floresce

Salgueiro

                                     No recomeço de tudo o sopro da vida pulsa no escuro útero   É a regressão do ser  a vestir-se de grão   O broto em mutação cava a passagem de ida ao desconhecido instante de orvalho e de sol de vento e de lua   Fiel ao fio que o ancora oferta à generosa chã altaneira fronde de flores e frutos   À tormenta e sua ceifa   inclina-se em reverência e doa-lhe imoladas folhas adubo de gérmen latente   Cada nó, cada gume   urde a preciosa trama que forma a antiga morada de todas as eras   O sopro da vida pulsa e tudo é recomeço neste jeito humano de ser

Tudo que nos acontece tem um propósito

  Eu sempre chamei de adversidade tudo que contrariava minha vontade. Na verdade, era a vida querendo que eu despertasse para a realidade.   Quando eu era criança tinha inflamação nos ouvidos de forma recorrente. O que eu não queria ouvir? Já adulta tinha crise de amidalite igualmente repetidas. Que mal eu causei a mim e aos outros com minha fala? Tive reação ao bacilo de coques na vista que levou um ano para curar. O que eu não queria ver?   Como eu me recusei a aceitar a vida como ela é, e me acolher como de fato sou, ela me deu sucessivas rasteiras para eu me voltar para dentro e descobrir o que estava oculto.   Não existe acaso, tudo tem um propósito, que na maioria das vezes é o nosso crescimento. As experiências irão se repetir até que eu entenda o que tenho que aprender.   É para isso que nascemos: para nos desenvolvermos, nos tornarmos pessoas melhores. 

Ensaio sobre a cegueira

  “Não foi a cegueira dos olhos que me interessou, foi a cegueira da razão.” – Saramago   Não li o livro, mas assisti ao filme. Ele destaca o dever de quem vê de assistir aqueles que não veem.   Mas até aqueles que têm olhos de ver possuem seu ponto cego. Esse ponto cego, comum a todos — despertos ou adormecidos — é a ignorância. A chave é examinar onde está a própria cegueira.   Eu sempre fui voluntariosa: queria moldar a vida à minha vontade em vez de me adaptar a ela. Como era de se esperar, não conseguia meu intento e me sentia vítima de um agressor indeterminado.   Essa atitude me causou várias crises. Desenvolvi alguns transtornos mentais, chegando a entrar em colapso. Não entendia que não eram as pessoas ou as circunstâncias responsáveis por eu ter chegado a esse ponto, mas a minha própria atitude mental e emocional equivocada.   Até mesmo agora, que despertei para a realidade e para o esforço de aceitar a vida e as pessoas como elas são, ainda há re...

O luto da paixão

 Luto da paixão Virgínia Leal Primeiro vem o encantamento, a química que vibra na pele. Então um véu esconde a realidade e mantém a sensação viciante. Por fim, cria-se um modelo perfeito. Então anos se passam sem conhecer quem está ao lado, à espera da atuação dele na peça teatral que não escreveu. Um dia, o desejo se frustra, o arquétipo se dissolve, o amor ideal se desfaz, a decepção se instala. Chega o luto da paixão. Dói ver a farsa desmoronar, a morte do conto de fadas, perder o que nunca existiu. Há quem continue a buscar um príncipe encantado. Há quem decida tirar o véu e conhecer quem ele encobriu. Assim o amor dará seus primeiros passos na convivência com alguém de verdade.

Como lidar com o medo

    “Nossos vínculos iniciais moldam nosso padrão de segurança emocional. “ @trevisangustavo   Na minha infância eu sentia medo o tempo todo. Meus pais brigavam muito, gritavam um com o outro, às vezes mamãe chegava a desmaiar. Tinha medo de que essa hostilidade se virasse contra mim, medo de minha mãe morrer. Não tinha como pedir ajuda, já que o medo tinha origem na conduta deles.    O medo, para mim, era algo difícil de lidar. Para sobreviver, a menina que fui criou a máscara da poderosa, eu não podia demonstrar fraqueza, então eu escondia o medo. A estratégia era congelar o medo.   Na vida adulta não pude mais evitá-lo, vez por outra o medo pulava para fora. Na minha primeira audiência judicial, sendo eu advogada, surtei: suava e tremia muito. Mesmo tentando disfarçar, minha reação era evidente.    Sentia de forma exagerada, desproporcional, até em situações em que não havia ameaça.   Percebi que o medo em mim se expandiu, generalizou-se p...

Padrão inconsciente

  “Você ama tentando resolver algo antigo, tentando finalmente ser escolhida, ser vista.” ana_emvozbaixa   Percebi que os parceiros que escolhi tinham algo em comum: infidelidade, indisponibilidade emocional, rompantes de agressividade ou hostilidade passiva e vícios – todos tinham traços do meu pai, eu ia vendo aos poucos.   Eu vivia um paradoxo: queria carinho de quem possivelmente nunca recebeu; pedia gentileza e atenção de quem era indisponível afetivamente; não suportava quem ele se transformava quando estava alcoolizado. Como era de se esperar, um dia a ficha caiu, eu me desiludi e fui embora.    Eu os escolhi porque queria que eles reparassem o que vivi no meu passado, queria “consertá-los” e isso era impossível.    Não conhecia outro modo de me relacionar senão aquele que aprendi na infância.    Depois fiquei sabendo que essa atitude é um padrão inconsciente, e eu iria repeti-lo indefinidamente se não tomasse consciência do quão destr...

Mulher: ser que manifesta

    A menina brinca de faz de conta, livre é sua imaginação. A adolescente desbravadora se encanta com sua metamorfose, se encanta com a vida. A adulta lapida a mulher receptiva, acolhedora, reprodutora, se afirma diante do mundo. A anciã leva consigo a menina, a adolescente e a adulta, e em seu caldeirão alquímico transforma as experiências vividas em sabedoria.   Em toda as fases a mulher é  fértil e juvenil: na imaginação, na geração, na consciência de si e do mundo.     

Por que a vítima de abuso também assedia?

    Por muito tempo eu me sentia vítima de tudo que me acontecia, até mesmo quando alguém reagia à minha hostilidade. Em contrapartida, achava que tinha direito de ser agressiva, prepotente, dominadora como medida de proteção diante de um mundo hostil.   Para esconder minha covardia, medo e impotência vivia atrás de uma máscara de poder. Me tornei excessivamente disciplinada e rígida, intransigente em meu ponto de vista. Emanava uma energia que empurrava as pessoas para longe, assim ninguém era capaz de me revidar.   Com o tempo entendi por que construí essa pessoa inatingível. Diante da impotência que a criança que fui sentia diante do poder do molestador, ela precisou se sentir forte e controladora. Essa menina, que me acompanha na fase adulta, se defende com a agressividade que aprendeu no ambiente familiar. E a forma de não sucumbir ao assédio era assediando, ao mesmo tempo se protegia colocando uma barreira de proteção. Assim, tinha poder sobre os homens e não s...

Convite

  Aceitei o convite para um sarau que mais parecia um serão ou melhor, um velório.   A anfitriã era a culpa que desfiava pecados sem constrangimento. A desventura regozijava-se  tendo o destino como cúmplice.   No canto da sala, comentários nostálgicos rememorando desgostos ao sabor de chá amargo. O passado tinha gosto de fel.   Grave piano em marcha fúnebre anunciava a iminência do devir Ninguém se acercava do caixão Ninguém lamentava o defunto.   A esperança olhava o infinito na expectativa da boa nova   Saí atônita do velório inusitado Como não queria ficar só  a insônia me fez companhia     

Revelações do inconsciente

    Vez por outra lembro da minha primeira paixão adolescente e não entendia por que dava tanta importância a essas memórias tão antigas.   Recentemente, tive a resposta: era o inconsciente querendo que eu refletisse sobre o quanto aquilo que aconteceu  influenciou o meu comportamento nas relações afetivas e de amizade futuras.   Eu me apaixonei pelo sobrinho de minha vizinha. Ficava horas no portão de casa, na esperança de vê-lo. Um dia ele me abordou e eu fiquei sem ação, sem saber o que dizer ou fazer. Nesse ínterim minha mãe me chamou e eu simplesmente fui embora sem dizer nada.  Não tive outra chance. Um tempo depois ele passou por mim de mãos dadas com um menina. Fiquei desolada. Depois me interessei pelo primo dele, que veio morar com a tia. Uma amiga me sugeriu deixar um bilhete me declarando, na janela do quarto dele e assim o fiz com o coração acelerado. No outro dia, recebi a resposta dele com outro bilhete: não se interessava por menina ofe...

Ser vulnerável

  “ Porque toda vez que você precisou de alguém no passado esse alguém falhou, né? Então você decidiu nunca mais ficar nessa posição.” (autossuficiência ou medo de ser cuidada?) @andrémariga     A criança que fui se sentia desprotegida, mas ao mesmo tempo não pedia ajuda, por orgulho ou medo de se expor. Para sobreviver, colocou a máscara da autossuficiência. Dizia a si mesma: “não preciso de ninguém”.   Quando fiquei adulta, era aquela que estava sempre disponível para cuidar de meus irmãos mais novos, só que era “do meu jeito”, jeito que aprendi com meus pais: na base da repreensão e prepotência.    Como tudo que é falso um dia é descoberto, chegou o momento em que não dei mais conta da sobrecarga que eu escolhi carregar. E foi através da depressão que eu conheci a vulnerabilidade.   Na verdade, eu nunca tive independência emocional. Paguei um preço muito alto para ter alguém ao meu lado, na expectativa de ser protegida e receber os cuidados que...

Caneta usada

    Não adianta usar uma caneta usada para escrever uma história nova. A caneta usada habituou-se às mesmas ideias, guarda vícios, hábitos e condicionamentos que quero mudar. Ela é apegada à história que foi testemunha e não é capaz de vislumbrar um novo caminho. Quando eu quero mudar o que escrevo ela falha e até estoura a tinta.   Preciso usar uma caneta nova, virgem, para que ela obedeça a meu comando e adquira novas memórias. Caneta nova desliza com facilidade, é confiável e não vai me deixar na mão.    Guardo com carinho a caneta que me acompanhou até agora, cúmplice de tudo que vivi, mas é preciso saber quando é  hora de aposentá-la. 

Questão de consciência

“Nenhum problema pode ser resolvido no mesmo nível de consciência em que foi criado.” — Albert Einstein Quando eu não tinha consciência da minha condição mental e espiritual, achava naturais os pensamentos que tomavam minha mente: “Será que vou dar conta? Todos estão contra mim. Todo homem é igual.” Meus sentimentos eram intensos e desproporcionais ao evento que os desencadeava.Eu me sentia injustiçada, vítima do mundo e das pessoas. Quando esses pensamentos e sintomas se tornaram insuportáveis, comecei a tomar a medicação receitada pelo psiquiatra. Passei a ver o mundo e a realidade de forma diferente. Era como se a lente por meio da qual eu enxergava tudo tivesse sido limpa. Na terapia, descobri que nem tudo era sobre mim, que era equivocado generalizar a partir de um único evento. Minhas emoções diminuíram de intensidade. Foi quando comecei a me perguntar: “É verdade que todos estão contra mim? Aquela pessoa agiu deliberadamente para me magoar? Sou mesmo incapaz? De que forma contri...

Fracasso

    Quando me separei, fiquei arrasada porque achei que meu casamento tinha fracassado.    Depois de anos, inclusive de outro casamento, entendi que toda relação tem ganhos. Muitas vezes a convivência com uma pessoa é preparatória para a próxima.   O suposto fracasso desenvolve resiliência, faz parte do processo, é muito difícil acertar de primeira. O fracasso só é problema quando se torna desistência.   Muitas vezes, fracasso é vitória disfarçada, ou má interpretação da situação. Outras vezes foi, na verdade,  uma fogueira que pulei.    Por trás da porta fechada pode não ter nada de bom, ou o que está ali não é para você, e insiste em algo que não tem chance de êxito. Quando a vida fecha uma porta, abre outra.   Não se deixe abalar ao ponto de achar que não é suficiente. Continue acreditando em você. Se olhar para trás, verá quantas superações de dificuldades, decepções, frustrações, adversidades já conseguiu.

A voz que não quero ouvir

    Dentro de mim há uma voz que orienta, rege, conduz. Uma hora é sussurro, outra hora grita a plenos pulmões, e pode emudecer se não quero lhe ouvir. Nem sempre a escuto e quando ouço, às vezes não lhe dou atenção. Se choro, ela me consola, se me entusiasmo, pede cautela, se fico apática, me tira da zona de conforto. Ela me diz verdades amargas, traz clareza e consciência quando a acolho.    Quando ela chega pela intuição, tenho impulso e movimentos involuntários. É quando consigo silenciar o burburinho da mente, o “por quê” e o “se”. Então saio do marasmo, confio e sigo, mesmo sem saber para onde e o que fazer. Ao resistir ao movimento da alma, a vida me sacode e me lança sabe-se lá onde.    Quando nos damos conta de que seria mais fácil se nos rendêssemos à luz, mesmo sem entendermos, mesmo nos contrariando, a vida seria muito mais fácil, mais fluida, mais leve, e viveríamos em paz.